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|| Marlene Dalva da S. Rothbarth ||
 

Curso de Pedagogia, Professora aposentada do quadro do magistério estadual. Exerceu cargo de professora no curso de magistério do Colégio São José e Escola de Aplicação da UNIVALI.Diretora de escola pública estadual, professora assistente de psicologia da educação e medidas educacionais na UNIVALI. Escritora e articulista em vários jornais da cidade de Itajaí. Escreveu quatro livros sobre genealogia e história de famílas de Itajaí: Uma história de Família,1999; Famílias de Itajaí, mais de um século de história, v.I, 2001; A Saga da Família Asseburg, 2003; Famílias de Itajaí mais de um século de história, v. II, 2005

 
Sabores da Infância
 

As lembranças chegam, muitas vezes, quando passamos pela rua e sentimos o cheiro da comida vindo da cozinha de uma casa. Aquele cheiro de peixe me lembra os dias de inverno e a tainha assada, recheada com a farofa de ova, cheiro verde e farinha de mandioca.

O pirão de feijão era feito com a farinha de mandioca, que vinha da Vila de Camboriú, bem branca, fina e torrada, a melhor da região. Com ela também se fazia o pirão d’água, escaldado com água fervente ou com água quente que nós chamávamos “jacuba”. Era uma delícia comer uma jacuba com peixe ensopado, geralmente a corvina, ou então, com lingüiça frita. Minha avó sempre dizia que este peixe devia ser consumido nos meses que não tinham “erre”, pois nos outros ele tinha gosto de maresia. Assim, nós costumávamos comê-lo em maio, junho, julho e agosto. A tainha era um peixe de época, só se encontrava no início do inverno. Quando a mata de silva florescia com abundância de flores, deixando tudo branco como se fosse neve, minha mãe dizia que naquele ano ia dar muita tainha.

Sinto saudades dos dias de verão, quando passávamos as férias na Praia de Camboriú e, de puçá nas costas, iscas no balde e um balaio, caminhávamos até à barra do Rio Camboriú para pescar siri. À noite, no fogão a lenha, os siris eram cozidos e, à luz de um lampião a querosene, colocado no meio da mesa, saboreávamos, com animação e até com certo orgulho, o fruto da nossa pescaria.
A farinha de mandioca sempre foi o prato comum na mesa dos papa-siris.

No tempo de fazer farinha também se aproveitava a massa da mandioca para fazer o cuscuz e as roscas de polvilho que eram servidos no café da manhã e da tarde.

Quantas vezes fui à casa da tia Nair para saborear o cuscuz, no café da tarde, temperado com especiarias, que ela fazia muito bem, no cuscuzeiro, uma forma exótica, com vários furos que eu achava muito interessante. Bem torradinho, tinha um sabor todo especial quando era molhado no café com leite.
A rosca de polvilho era feita misturando alguns temperos, embrulhadas em folhas de bananeiras e levadas ao forno de lenha, construído na rua ou no rancho da casa. A melhor delas era a que, depois de fria, ficava murcha e com a consistência de borracha.

Quando passava o tempo do cuscuz e da rosca de polvilho, não podia faltar, no nosso café da tarde, a banana frita com farofa, feita com a banha que sobrava na frigideira misturada com açúcar e farinha de mandioca.

Nos dias de chuva, os bolinhos de fubá, salpicados com açúcar e canela, eram os preferidos na hora do lanche.

Um dos nossos passatempos, nos dias chuvosos, era ir para a cozinha fazer puxa-puxa. Panela no fogo com água e açúcar, ou melado de cana, mexendo sempre até ficar no ponto. O resultado era despejado numa pedra de mármore, dividia-se em partes para começar a puxar, ainda quente. Cada um pegava uma parte. Puxa, puxa, dobra, puxa outra vez até ficar com uma cor amarelada. Enrola, enrola, até ficar uma tira comprida. Com uma faca partiam-se pedaços do tamanho de uma bala e pronto, estava na hora de consumir a deliciosa puxa-puxa.

Vida de criança, feita de coisas simples, de um tempo simples, que hoje despertam sabores tão diferentes dos dias atuais, que despertam lembranças afetivas guardadas no coração.

 
* O conteúdo desta coluna não representa a opinião do Portal Itajaí Virtual.
 
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