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Entrei na Matriz do Santíssimo Sacramento e caminhei direto ao altar da Virgem Maria. Meus passos ressoavam no silêncio e na penumbra daquele templo vazio àquela hora da tarde. Sentei-me na frente da imagem e comecei a contemplá-la. No primeiro momento, olhei suas vestes e lembrei-me dos versos tão conhecidos, desde os tempos de criança –“Azul é teu manto, branco é teu véu”. Depois, analisei seu olhar e suas mãos delicadas, uma delas apontando para o seu coração com uma coroa de espinhos.
Refleti. Esta é a imagem que representa a mulher, peregrina da fé, que percorreu os caminhos da vida com as típicas características da peregrinação: perplexidade, surpresa, fadiga, confusas contradições. e muitas interrogações. Sua vida foi atribulada como o de qualquer um de nós.
Pelo menos, em três oportunidades, o Evangelho a apresenta meditando em seu coração, sobre os fatos dolorosos pelos quais teve que passar, procurando o rosto de Deus, entre silêncios e obscuridades, porque não lhe fora dito antes o que haveria de acontecer. Primeiro, a fuga para o Egito deixou-a perplexa, pois não entendia porque Herodes queria aniquilar seu filho. Depois, o adolescente que ficou três dias no templo, afastando-se dos pais, angustiou Maria e a espada da incerteza se crava em seu coração. Três dias e três noites de angústia sem saber se o encontraria. Ao encontrá-lo, será que externou uma grande alegria? Por certo que sim, mas suas primeiras palavras são de repreensão: - “Por que fizeste isso conosco? Ficamos angustiados, te procurando por toda a parte e tu aí, como se nada tivesses a ver conosco?” Foi um desabafo emocional, próprio de mãe, de mulher que não sabia o que estava para acontecer. E a resposta do adolescente, para ela, foi estranha, misteriosa e distante, sinal de que não sabia o que nós sabemos hoje. - “Não sabes que devo ocupar-me das coisas de meu Pai”? O evangelho diz que a mãe não entendeu a resposta. Mas as palavras estavam claras, o que ela não entendeu foi a atitude do menino. E ela, na sua grandeza de mãe, retira-se humildemente e cheia de paz começa a meditar em seu coração o que queriam dizer as palavras do filho. E por fim, o episódio do calvário. Como resistir àquele sofrimento, olhando seu filho crucificado como se fosse o pior dos criminosos? Interrogações. Ela buscava, em silêncio, uma resposta. Fez seu caminho silencioso que a conduziu até o espírito das bem-aventuranças.
Não foi uma mulher aureolada, mágica, tão distante da nossa natureza humana. Nada de princesa, mãos delicadas e finas. Não foi uma soberana, foi uma servidora de Deus e de seus irmãos, uma intercessora humilde e moderada, como a vemos nas bodas de Caná.
Não foi a mulher que o artista representa e a coloca tão longe de nós, no azul do firmamento, coroada de estrelas, a lua debaixo de seus pés, rodeada de anjos e arcanjos, revestida de uma mitologia mágica como se fosse uma semideusa.
Foi humilde esposa de carpinteiro, que se entregava aos serviços da casa, cuidando com desvelo de sua família. Para nós Maria é rainha porque foi humilde, despojada de tudo, uma pobre de Deus e por isso mesmo uma mulher invencível, senhora de si mesma antes de ser senhora nossa, indestrutível ante as adversidades.
Saí da Igreja pensando na palavra “adversidade”. Como temos superado, ao longo da vida, as adversidades? |