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Nós morávamos na Rua Samuel Heusi, numa casa longa, de paredes-meias, com mais três famílias. Nossa casa era a primeira e tínhamos o privilégio de ocupar um espaço de terra ao lado, onde meu pai aproveitava para organizar um jardim, com canteiros e muitas flores de estação.
Um quintal grande era o paraíso das brincadeiras onde as crianças da vizinhança comungavam conosco das peraltices que inventávamos nas tardes ensolaradas.
Muitas vezes, imitávamos as personagens dos filmes de faroeste, com tiroteios e cabos de vassoura imitando cavalos, escondendo-nos entre as ramagens da plantação de aipim, nos fundos do quintal. Outras vezes, andávamos com pernas-de-pau, feitas por nós mesmos, com dois sarrafos onde pregávamos dois tocos de madeira para apoiar os pés.
No chão limpo do quintal alguém riscava o modelo da amarelinha, com seis quadrados e um semicírculo. Uma pedra ou caco de telha era jogado em cada quadrado da amarelinha e ficava-se pulando num pé só, pegando a pedra para depois sair da amarelinha. Quem jogasse a pedra em todas as casas, pulando e pegando a pedra, ganhava o jogo.
Depois vinha o tempo da pandorga, em geral, feita pelos meninos. Eles eram habilidosos na busca do material e na confecção da pandorga. Cortavam o modelo em papel de seda, faziam o “grude” para colar as tiras de bambu sobre o papel. Tiras de pano para a rabiola, um carretel de linha e estava pronta a pandorga para voar no céu. Saíam correndo pela rua até que ela levantasse e quanto mais linha desenrolasse, mais alto ela subia. Era uma alegria infinda no momento em que pandorga empinava. A funda era feita com a melhor forquilha da goiabeira; tiras de borracha de pneu amarradas na forquilha e no recorte de couro, a pedra para atirar.
As tampas das garrafas de gasosa eram guardadas para o jogo de “chapinhas”. As bolinhas de vidro eram compradas na venda do seu João do Mercado para jogar na “boca” (um buraco feito com o calcanhar, pronuncia-se bóca), mirando e impulsionando a bolinha com o polegar para acertar no alvo. Às vezes a disputa era tão acirrada que saía briga.
Eram brincadeiras sadias que desenvolviam o físico e a mente. Brincar de esconder, de pegar, de matar, de amarelinha, para adquirir equilíbrio, coordenação e autoconfiança.
Nas noites de verão, na frente da casa brincávamos de pular corda, jogar bola (de borracha), ou sentados na calçada, as brincadeiras de “berlinda”, do jogo do anel, ou fazíamos a roda para cantar a “ratoeira”. A “Margarida” era uma roda de meninas que protegiam, com os braços, uma delas que ficava no centro e outra ia andando em volta e cantava: “Onde está a Margarida, olê, olê olá... Muitas eram as brincadeiras de cantorias, onde se desenvolviam o gosto pela música, pelo canto e pela coreografia. Todas as brincadeiras tinham um cunho pedagógico, desenvolvendo o equilíbrio, a coordenação motora, habilidades artísticas e a sensibilidade. Os laços de amizade se fortaleciam.
Não havia televisão nem computador, mas todas as tardes ouvíamos rádio, na hora do seriado do Tarzan, do Vingador, e do Gerônimo, herói do Sertão. Nossas mentes viajavam e criávamos imagens dos lugares e das personagens onde os fatos aconteciam.
Hoje, aquela casa já não existe, mas eu olho aquele casarão que a substituiu e me vejo sentada na calçada com meus amiguinhos, conversando e descansando das brincadeiras, depois voltar para casa, dormir e no outro dia recomeçar.
Éramos felizes.
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