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Quantas vezes eu fico a refletir sobre as belezas da praia que um dia se chamou Praia de Camboriú, hoje Balneário Camboriú. Nos anos quarenta do século passado, a praia começava a ser freqüentada por famílias de Blumenau, Brusque e Itajaí. Algumas poucas casas de madeira na atual Avenida Central e na beira da praia constituíam o núcleo da Praia de Camboriú, que pertencia ao Município de Camboriú, mais conhecido como Vila do Garcia.
Sempre que desço a estrada da Rainha fico a contemplar o verde da encosta, o azul do céu e do mar na sua grandeza exuberante, e muitas lembranças me ocorrem. A mais remota foi quando meus pais me levaram para participar do casamento da nossa empregada que morava na praia, e foi a primeira de tecido de riscado eram cheios de palha de milho renovada todos os anos, e os travesseiros eram preenchidos com paina ou marcela, que nós comprávamos, em saco, dos meninos moradores da praia. À noite acendíamos os lampiões a querosene e ficávamos vez que vi o mar. Eu era bem pequena e fui até à praia levada por duas moças que também foram ao casamento. Ao chegar perto do mar, tirei meus sapatos de festa e, descalça, fui sentir a sensação da onda se espraiando com sua espuma branca tocando meus pés. Olhando o refluxo da onda fiquei tonta e caí molhando meu vestido da festa. Foi um corre-corre e tiveram que tomar as providências para secá-lo até a hora do casamento.
Mas, toda aquela visão da praia que se descortina do alto do morro é um espaço bem conhecido do meu tempo de criança e adolescência, porém, com paisagem diferente da de hoje. Era um lugar mágico e um refúgio aonde nossa família vinha passar as férias de verão.
No início, meu pai alugava uma casa na única rua que dava acesso à praia, hoje Avenida Central. Era de madeira, pé direito alto, com uma varanda em toda a extensão da frente. No outro lado da rua havia uma casa grande, parecendo mais um barracão, com várias portas onde seu Firmo Goya mantinha um armazém que fornecia querosene para acender os lampiões, banana, farinha de mandioca, feijão, carne seca, alguns tecidos, utensílios de latão e alumínio e outros trecos.
Firmo Goya era proprietário de grande extensão de terras ao lado e atrás do seu armazém. Foi dele que meu pai comprou um terreno grande com uma pequena casa de madeira, onde hoje passa a Avenida Brasil a uns quarenta metros da Avenida Central. Toda a propriedade atrás do seu armazém e a casa foram adquiridos, bem mais tarde, por Bruno e Rosinha Schmitt.
Todos os anos nós vínhamos passar as férias naquela pequena casa. Não havia luz elétrica nem água encanada. Vínhamos numa carroça alugada, com alguns mantimentos, material de limpeza e roupas. Precisávamos esgotar o poço d’água e lavar suas paredes para deixar fluir água boa que seria usada na cozinha, na limpeza e no banho. Para beber a água era fervida e colocada no pote ou na moringa de barro. Nosso banheiro ficava num pequeno quarto da casa e o chuveiro era uma lata grande com um bico de regador, cheia d’água, que pendia da corda presa na viga do telhado. O fogão à lenha era de tijolos sobre quatro pés de madeira com chapa de ferro. As camas feitas com tábuas presas nas paredes se chamavam tarimba. Os colchões contando histórias ou conversando ao redor da mesa. De manhã bem cedo ou ao entardecer íamos à praia ver a rede chegar para comprar os peixes ainda pulando na areia.
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